Reinventei meu nome

Estava sozinha naquele banco de madeira triste, a árvore chovia umas lágrimas enquanto eu estudava o azul-cinzento daquele dia incomum. O vento vinha e zumbia uma canção distante de amor – as músicas, quase sempre, tem o poder de me transportar. E fui afastada daquele desejo de tornar-me invisível. Queria mesmo que todos me vissem ali, cantando, segurando a barra da saia rendada que minha mãe fez quando eu tinha outros anos.
As minhas mãos seguravam meu rumo e eu já sabia que seria assim: campânula bordada de estrelas e guizos iluminando destinos que surgissem por aí. E como eu estava dissimulada naquele dia... Meus “olhos de ressaca” bafejavam meu desejo de um amor que fosse um baú de notas musicais, teclas de piano velho e conchas antigas de outros mares viajados.
Nesse dia eu pude ser tudo o que eu queria ser. Dissimulada como Capitu, invisível nos átimos necessários, lírica como Cecília, singular como Clarice, e do mar como Sophia. Havia um mar absoluto naquelas paisagens tão queridas por mim. E pensei: vou me entregar aos meus sonhos mais antigos e recomeçar a vida nova. Reinventar.
Vou permitir novos olhares, pensamentos, mas nunca esquecer os princípios primordiais. Voltei àquele banco de madeira triste, que já não era triste; e contemplei a árvore que agora me sorria flores e frutos. O vento veio me falando cócegas e brincadeiras, mostrando que o dia era para ser vivido intensamente, de uma vez só.
E justo nesse dia eu encontrei alguém, e me atirei em seus braços, publicamente, e sorri um sorriso extasiado, e o beijei, publicamente; rodopiei como em filme de romance. Ele me beijou a face e as mãos dizendo que ia seguir comigo, não importava para onde. E fomos, então, os dois, navegando, navegando um amor-mar repleto de ventanias que refrescavam e vivificavam nossas almas sequiosas.
Eu pude ser tudo o que eu queria nesse dia. Eu pude ser toda, várias, única e, principalmente, ser EU – a inúmera. Nesse dia reinventei meu nome para que pudesse estar conforme a vida e meus sonhos...






Jaquelyne de Almeida Costa

Comentários

Ernani Netto disse…
Mas somos isso mesmo, um eterno reinventar, e nisso acabamos por descobrir que temos vários eus!

Bjaum
leo disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
leo disse…
"Um homem precisa reinventar a si mesmo , sempre que sua auto-adimiração estiver ameaçada." (E. Santos)
Sem mais palavras para este teu texto. Toda e qualquer palavra que eu pudesse por aqui escrever não chegaria a expressar com clara exatidão tudo o que se propõem a nos fazer sentir.
Parabéns pelo texto!
Chris... ჱܓ disse…
Que post lindo!
Parabéns!
Diu Mota disse…
Jaqueline, adorei seu texto porque me transportei para 'aquele banco'. Um bom texto ( não que o seu se limita a isso- é um jeito de falar) faz aflorar nossas emoções.

Abraço de uma visitante.
"Vou permitir novos olhares, pensamentos, mas nunca esquecer os princípios primordiais"

Só por curiosidade... como isso é possível? Não são os princípios primordiais que não nos permitem ter novos olhares e pensamentos?
Menino-Homem disse…
eu sempre soube do seu poder de surpreender, entreter, encantar...

você sempre sendo,
e eu te adorando.

entre Helena e Capitu
sou mais tu.

beijos,
do seu homem virando menino
que te admira muito.
Emily,

Janeflí saberá conduzir suas essências...
sem jamais perder o que lhe alimenta a raiz...

Só sendo para saber!!!!
E Jaque Sou...
Sim, Ernani, um eterno processo de fenixização!!

Beijos=*
Leo,
saudades de você!
Obrigada, meu querido!

Baises!!
Chris,

obrigadíssima!!!
Beijokas=*
Diu,

adorei sua visita,viu!!
Pode vir sempre!!

Obrigada!

Beijos=*
Meu menino...

Que vontade de sair correndo e lhe dar um beijo e um abraço!!!

E, pode ter certeza,
eu sou sempre mais TU!!!

Lindo!!!

Beijos de dourado alaranjando os arrebóis!
Ana!!!

Quanto tempo!!
Estou em falta com você!!
Vou resolver isso!!!

Beijos=*
Léo disse…
Isso foi um Reinvento. Mais eu também descrevo como uma evolução espiritual e Maturação do teu ser.

E que o ser que adentrou tua vida lhe complete ainda que a chama da incerteza a faça navegar por mares incertos, esta força que está contigo... Aproveite-a da melhor maneira possível, enquanto houver ventos nesse mar.

Adorei o EU - A INÚMERA. Isso me deu várias idéias...

Direto do Rio.
Beijão linda.
Ex-critor disse…
Gosto de seu texto em prosa. Você deveria escrever mais nesse estilo. Ele também é muito poético. Gosto da poesia em linhas longas, que não requebra as cadeiras.....

bjs
luiz

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