O holocausto da Bailarina



Foi ao chão aquela frágil criatura de tez tão branca e fez-se em mil pedaços. Foi tudo tão rápido que era quase inevitável aquela perda. A bailarina do meu porta-retrato preferido acompanhava-me desde os meus tempos de muito criança. Um balançar da estante e o incalculado gesto de um braço já idoso fez a minha preferida bailarina, aquela em quem eu sonhava tornar-me um dia, dançando qual um cisne solitário num lago noturno e mágico, cair e desfazer-se como nuvem sem chuva indo ao sabor do vento.

Mas que tudo na vida tem seu motivo e por uma força bem maior isso veio a me despertar. Era a descoberta da minha profissão, aquela para qual fui feita. Ao meu redor não eram maiôs e nem sapatilhas cor de rosa, eram muitos, inúmeros papéis e canetas de variadas formas e cores. Todas as agendas esquecidas encontravam em mim solução para seus problemas de rejeição. Meu destino estava ali, naqueles papéis. O mundo das palavras me conquistava, minha mãe já percebia meu forte laço ao que em mim sempre foi e será arraigado: a literatura e seu encantamento.

Tantas as idas e vindas daquela minha pasta amarela carregada de papéis, canetas e livrinhos infantis, que um dia andando de ônibus com minha mãe esqueci-me da querida pasta e lá se foram as amadas coisas minhas. Recuperada da perda lá estava a velha Jaquelyne, novamente acompanhada de seus “bagulhos”, expressão muito utilizada por minha mãe que as vezes se irritava com o meu apego àquelas canetas velhas e tantos papéis de computador e agendas. Mas no fundo ela sempre soube que aquilo era o início do meu sonho e foi a primeira a me elogiar e incentivar a escrever.E da leitura fiz minha diversão e minha inspiração.

A queda da bailarina era o elevar do meu sonho. Ofereceu-se em holocausto para que eu despertasse para o que realmente fazia parte de mim. Hoje, sinto falta da delicada criatura de rosadas roupas que parecia sempre estar a dar o seu último passo diante de mim.



Jaquelyne de Almeida Costa.

Comentários

Menino-Homem disse…
"ou eu te mato, ou eu me moro..."
adoro-te!
Paulo Roberto! disse…
Jaque meu bem! Perdões.

Eu vou postar que você seu blog
nos que me presentearam,
porém,
digo que você não me avisou moça,
eu não sabia que tinha
me indicado também ^^!!

Sinto muito, beijos linda!

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