As dores, o que eu ia dizer e um beija-flor


Eu ia dizendo à minha mãe o quanto minhas pernas estavam doloridas, o quanto estava cansada e aborrecida com toda essa hipocrisia que alcançou a humanidade mais do que o vírus H1N1. Eu ia reclamar que o mundo quer desmanchar-se todo nessa peneirada de terremotos que vem sucedendo desde o primeiro dia do ano. Eu ia segredar que estava com medo de viver porque a violência ocupara o centro das atenções, das cidades e principalmente das atitudes humanas. Mas avistei um lindo beija-flor nas flores abaixo da janela do quarto. Ia reclamar da vida e dizer que estava enfastiada demais quando a miniatura beleza do beija-flor engrandeceu-se diante dos meus olhos. Aí minhas lamúrias se apequenaram, quase invisíveis.
Meu reflexo foi justamente chamar a minha mãe para presenciar essa espécie rara que deu o precioso ar de sua graça abaixo da nossa janela. Dividir essa alegria era mais que necessário. Repartir e comungar o pão. Deus estava ali naquele momento. Sentimos uma paz indescritível e nos abraçamos. Há quem não veja motivo para toda essa glorificação. Eu não me importo. Miro o pequenino. Creio que ele fosse do tamanho ou ainda menor que o meu dedo mindinho. Era de um verde bandeira cintilante e carregava uma charmosa coleira branca. Célere. Quase que não víamos suas asinhas a bater como um coração. Fiquei como um estandarte pendurado no varal para secar. Imóvel. Era uma sensação deliciosa poder vê-lo assim de tão perto. Um estandarte cansado de guerra pendurado na janela, mas renovado.
E... eu ia dizendo mesmo o quê? Ah, deixa pra lá! Não era nada de tão fundamental, nenhuma filosofia de vida, nenhuma consideração final. As coisas simples sempre serão as mais belas. Lembro aqui de uma entre tantas belas flores que Cecília Meireles deixou a perfumar a alma de quem se dedicar ao seu patrimônio letrado: Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. E eu queria dizer que as minhas pernas ainda doem, que continuo chateada com o rumo que as pessoas dão às nossas vidas, que continuo preocupada com a geologia do nosso planeta, no entanto, meus olhos foram curados da comodidade pasmaceira do dia a dia e quero ser bela e leve como esse beija-flor, mesmo com a alma dorida.


Texto e foto: Jaquelyne A. Costa

Comentários

Deus sempre nos mostrando o quanto a vida é bela.

beijooo.
Denise disse…
O Beija-Mar me deu prova:
Uma estrela bem nova
Na luminária da mata
Força que vem e renova

Beija-Flor de amor me leva
Como o vento levou a folha

Minha Mamãe soberana
Minha Floresta de jóia
Tu que dás brilho na sombra
Brilhas também lá na praia

Beija-Flor me mandou embora
Trabalhar e abrir os olhos


Milton diz q em uma epoca muito dificil da vida,um menino que voava.............mostrou a ele que era pra continuar............pq haveria luz e paz.

Fez esta musica por conta disso.

Beijo A FLOR
Elka Macedo disse…
bravo! bravo! bravo!

Lindas palavras amiga. Me orgulho muito de ti e desse dom que vc tem de transformar a vida em poesia.
Tão belo quanto o beija-flor é a sensibilidade das pessoas que conseguem contemplá-lo.

Te adoroooooo muito
Fica com Deus!

Postagens mais visitadas deste blog

Descendentes de Ares, doentes de um ódio cancerígeno

Amor jamais será essa coisa pálida que faz você se sentir pequeno e esquecido

Poema do sim e do não